quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A Revolução Russa segundo Maurício Tragtenberg - Nildo Viana

Resenha:
Tragtenberg, Maurício. A Revolução Russa. São Paulo, Faísca, 2007; Tragtenberg, M. A Revolução Russa. São Paulo, UNESP, 2007.

A Revolução Russa segundo Maurício Tragtenberg


A Revolução Russa foi um dos acontecimentos históricos mais importantes do século 20. Ela foi palco de calorosos debates, análises, disputas, e acabou sendo fonte inspiradora de lutas e ações políticas posteriores. A versão dominante da Revolução Russa foi amplamente divulgada, sendo que a versão dos vencidos foi relegada à marginalidade. No Brasil não foi diferente. Aqueles que discutiram a Revolução Russa reproduziram a versão oficial da historiografia e deixaram de lado as ricas experiências proletárias e camponesas, o significado histórico fundamental e revolucionário dos sovietes (conselhos operários), a esquerda dissidente e suas críticas ao regime bolchevique estabelecido. Uma rara exceção existiu no seio da intelectualidade brasileira e foi representada por Maurício Tragtenberg, que fez reemergir a perspectiva do proletariado no que se refere ao marxismo e às lutas heróicas do proletariado. Assim, as duas reedições da obra de Tragtenberg, A Revolução Russa [1], é antes de tudo uma necessidade, mas também é uma brecha para que a verdade sobre este acontecimento histórico reapareça.
Compreender a obra significa compreender o autor. Da mesma forma, compreender o autor significa compreender a obra. Maurício Tragtenberg foi um dos mais importantes sociólogos brasileiros e exerceu influência sobre inúmeros intelectuais, amigos, alunos. O sentido da vida e obra de Tragtenberg foi, a nosso ver, a luta pela autogestão, e não, como alguns podem pensar, “uma vida para as ciências humanas”. Tragtenberg nasceu em Erexim, Rio Grande do Sul, no dia 4 de novembro de 1929. Morou algum tempo em Porto Alegre e posteriormente mudou para São Paulo. Freqüentou o Centro de Cultura Democrático, movimentos de jovens judeus, Partido Comunista Brasileiro, Biblioteca Municipal de São Paulo, família Abramo, Partido Socialista Brasileiro e Centro de Cultura Social, de orientação anarquista. Desde os 10 anos lia Rosa Luxemburgo, Trotsky e vários outros, pois tinha acesso a uma ampla bibliografia, cuja origem era o acervo de familiares, bibliotecas, partidos, etc. Manteve contato com intelectuais como Antônio Cândido, Azis Simão, entre vários outros. Aliás, foi Antônio Cândido que lhe informa da possibilidade para entrar na USP através da proposta de uma monografia, desde que essa fosse aceita. A monografia, depois publicada como livro (Planificação: Desafio do Século 20), foi aprovada e assim ele passou a fazer parte da esfera acadêmica. Na esfera acadêmica, produziu várias obras, com destaque para sua teseBurocracia e Ideologia, além de diversos livros, bem como prefácios de outras obras, organização de livros e artigos para revistas e jornais. Chegou a ser colunista do jornal Notícias Populares, visando atingir um público composto por trabalhadores.
Alguns temas foram recorrentes e fundamentais em sua produção, tais como a questão da burocracia, a obra de pensadores como Marx, Weber e Bakunin, a autogestão social, as lutas operárias, a autonomia e auto-organização do proletariado e campesinato, autores “marginais” ou “malditos” como Rosa Luxemburgo, Makhaïsky, Korsch, Bordiga, Pannekoek, Gorter, etc.
A preocupação de Maurício Tragtenberg com a burocracia se manifesta em sua primeira obra, a monografia-livro Planificação: Desafio do Século 20, no qual aborda a questão da burocracia, iniciando com uma discussão sobre alienação, natureza humana e classes sociais, para encerrar com uma análise do bolchevismo, da burocratização da Rússia e do capitalismo de Estado. Ele encerra apresentando a alienação como sendo provocada pela divisão social do trabalho e que a reintegração do homem na humanidade e sua essência só pode ocorrer através do socialismo, que realizaria a emancipação humana. Sua obra Burocracia e Ideologia, oferece uma análise da formação e características das teorias gerais da administração, abarcando um amplo espectro histórico (do modo de produção asiático ao capitalismo) e ideológico (de Saint-Simon a Max Weber). As teorias gerais da administração são consideradas por ele como ideologias, formas de falsa consciência, representando os interesses das classes dominantes, que são operacionais no nível técnico e que mudam de acordo com a mudança nos processos econômicos e sociais. O tema da burocracia é retomado em Administração, Poder e Ideologia, que aborda o problema das grandes corporações e questões como a co-gestão, o participacionismo e outras formas que as grandes empresas utilizam para enquadrar e integrar os trabalhadores. A crítica da burocracia continua emSobre Educação, Política e Sindicalismo, mas desta vez focalizando a burocracia escolar e universitária.
Outro tema fundamental na obra de Tragtenberg é o da educação libertária e da autogestão das lutas operárias. A educação está presa nas malhas da burocracia, mas é um processo contraditório, havendo brechas e possibilidades, lutas que são definidoras da produção, apropriação e expropriação do saber. Daí a presença em sua obra do tema da “pedagogia libertária” ou “autogestão pedagógica”. Por isso ele analisava os educadores libertários (Francisco Ferrer), e as experiências históricas (a autogestão pedagógica na Espanha). Isto estaria ligado ao processo de constituição de uma nova sociedade e, retomando Marx, entendia que tal processo seria resultado da luta da classe operária, de sua auto-educação e auto-organização. Segundo Tragtenberg, em Reflexões sobre o Socialismo, apesar da tendência à burocratização, a classe trabalhadora nega este processo criando organizações horizontais, igualitárias, novas relações sociais. A chave para entender a formação de uma nova sociedade está no desenvolvimento destas formas de auto-organização do proletariado. No seu processo de luta, de auto-organização e associação (comissões de fábrica, comitês de greve, conselhos operários), se encontra o embrião da futura sociedade autogerida. É aí que se encontra a razão de sua crítica aos partidos e sindicatos, bem como sua oposição ao capitalismo de Estado (“socialismo real”).
É neste contexto da produção teórica de Tragtenberg que podemos compreender melhor o seu livro sobre a Revolução Russa. Tragtenberg analisa a pré-história da Revolução, analisando a Rússia Imperial, a evolução do czarismo, as rebeliões camponesas, a igreja. Depois analisa a sociedade russa pré-revolucionária, no qual apresenta um panorama das classes sociais existentes neste período, os debates entre as tendências políticas, e a Revolução de 1905 e o papel dos partidos políticos. O processo da Revolução Russa é a parte seguinte, na qual aborda a revolução camponesa na Ucrânia, a instauração do regime bolchevique, a revolta de Kronstadt, a questão sindical e a Oposição Operária de Alexandra Kollontai, os Sovietes e seu esvaziamento pelos bolcheviques, e diversas questões postas no processo de luta de classes na Rússia deste período (ditadura do proletariado, questão nacional e colonial, assembléia constituinte).  
É neste contexto que ele apresenta, na parte final, a discussão sobre o partido político. Ele questiona o centralismo democrático e aponta suas conseqüências. Segundo Tragtenberg, “as revoluções que procuram mudar as relações de propriedade e não somente as pessoas que governam, instaurando um novo modo de produção, não são feitas por partidos, grupos ou quadros, mas resultam das contradições sociais que mobilizam amplos setores da sociedade”. O papel do Partido Bolchevique foi promover uma contra-revolução. O partido passa a ser um estado burguês em miniatura e defender o liderismo e centralismo. O partido reproduz a mentalidade burocrática e cria ideologias para se justificar e legitimar, isto, tal como a ideologia leninista da nulidade operária. O partido assume o poder estatal e toma conta da sociedade, realizando uma aliança entre a burguesia de Estado e a tecnocracia, o que promove a implantação do capitalismo de Estado. O substitucionismo apontado por Trotsky em seu período de juventude e em polêmica com Lênin (O partido substitui a classe; o comitê central substitui o partido; um ditador único substitui o comitê central) se realiza na realidade concreta. O bolchevismo já era ideologicamente o que se tornou praticamente a nível nacional, ou seja, foi o promotor do capitalismo estatal. As ideologias e ações do Partido Bolchevique confirmam a tese do substitucionismo: as teses defendidas por Lênin (gestão individual das empresas) e Trotsky (a militarização dos sindicatos) e a prática efetuada por ambos (massacre na Ucrânia e em Kronstadt) são manifestações concretas de algo que já estava em germe, em alguns casos, ou já estavam desenvolvidas, mas sem aplicação prática.
Assim, Tragtenberg faz uma revisita ao processo histórico da revolução russa partindo da perspectiva do proletariado. Neste sentido, esta obra de Tragtenberg (mas não só esta) mostra como a perspectiva do proletariado está presente na análise histórica e na reconstituição histórica. Trata-se de uma questão discutida na historiografia, mas sob a forma relativista e geralmente com tendência individualista. A reconstituição de um fenômeno histórico é realizada tendo por base as informações existentes sobre ele, as ferramentas intelectuais e analíticas de quem a faz, os valores, sentimentos, concepções e interesses do mesmo, que estão na base da escolha e formação destas ferramentas intelectuais.
A concepção cientificista segundo a qual bastaria ter um instrumental metodológico e/ou uma abordagem supostamente teórico-sistemática para dar conta da reconstituição do fenômeno histórico é ilusória e nada tem de inocente. Esta concepção revela uma perspectiva de classe, que está na sua base e também dos “métodos” e “teorias” apresentados como a solução mágica para chegar ao “conhecimento científico”, sendo, na verdade, construções ideológicas, metafísicas e reificadas. O seu oposto, o relativismo, já abandona a pretensão da verdade e se refugia em outras ideologias metafísicas e imprecisas, fazendo do descompromisso ou do compromisso duvidoso a sua máxima e seu guia. Assim consegue disfarçar a perspectiva de classe que está na sua base.
Na obra de Tragtenberg, nenhuma destas alternativas se encontra presente. A história da Revolução Russa é apresentada em seu processo social de constituição, perpassado pela luta de classes, pelos desdobramentos destas lutas, pelas formas organizativas, intelectuais e ideológicas que assume, num processo analítico que não apenas mostra as forças em luta, mas suas debilidades e, principalmente, como o discurso dominante, burocrático-bolchevista, é ideológico, uma falsa consciência sistemática da realidade, e, ao mesmo tempo, eficaz, mobilizador e legitimador da exploração do proletariado pela burocracia metamorfoseada em burguesia de Estado.
Isto é perceptível, por exemplo, na análise que ele faz do economista Preobrajenski. Este ideólogo bolchevique irá escrever a obra “A Nova Ciência da Economia”, na qual discute as leis gerais do capitalismo e do socialismo. Ele produz a tese da “acumulação socialista primitiva”, na qual existiria, tal como na época de surgimento do capitalismo existiu a “acumulação primitiva de capital”, a pilhagem. Tragtenberg coloca que, para Preobrajenski, “a acumulação socialista aparece de duas formas: pela redução do salário dos operários e funcionários do Estado ou à custa das rendas dos pequeno-burgueses e capitalistas. Pelo controle dos impostos, o setor socialista poderá apropriar-se da mais-valia do setor privado”.
Isto tem como conseqüência o reforço do setor socialista da economia e do aparato partidário. Os setores que seriam pilhados seriam, fundamentalmente, os do setor privado, que, naquele momento, eram os camponeses e outros setores (dependendo do momento histórico). A tese, já presente em Engels e Lênin, da “segunda luta”, agora entre proletários e camponeses, é retomada e serve como justificativa e legitimação da superexploração do campesinato.
A questão da perspectiva de classe aparece neste exato momento. Em primeiro lugar, o paralelo entre revolução burguesa e proletária expressa uma perspectiva de classe por parte de Preobrajenski. Suas teses apontam para confundir revolução burguesa e revolução proletária, propriedade estatal com “setor socialista”, acumulação primitiva de capital com produção de excedente no socialismo, etc. Ora, a confusão, ou seja, a fusão de duas coisas radicalmente diferentes é apenas a manifestação de uma perspectiva de classe, burocrática, no qual um dos dois elementos é destruído e permanece apenas na linguagem. O socialismo com exploração, mais-valia, acumulação, pilhagem, aparato burocrático centralizado, partido centralizado e gestor, não é nada mais do que o capitalismo estatizado na prática que aparece como sendo o seu contrário. Essa magia das palavras, porém, não é perceptível imediatamente por alguém que não parte da perspectiva do proletariado e é aqui que reside o problema da reconstituição histórica e perspectiva de classe. Para alguém ler Preobrajenski e perceber a confusão e seu significado, seria preciso possuir valores, sentimentos e concepções antagônicos aos dele. Uma leitura “neutra”, “objetiva”, fundada em determinados métodos e concepções, realizada por portadores de determinados valores e sentimentos, não ultrapassaria o “dado”, ou seja, o discurso de Preobrajenski, o que significaria acreditar nele e tomar seu discurso em favor de um capitalismo estatal como discurso em favor do socialismo.
Este não foi o caso de Tragtenberg, que percebeu o caráter da obra de Preobrajenski e não só dele, mas também de Lênin, Trotsky, Stálin e vários outros, revelando os interesses de classe por detrás da legitimação do capitalismo estatal. Assim, a obra de Tragtenberg tem como mérito partir da perspectiva do proletariado e ao fazer isso revelar que por detrás das produções intelectuais existe uma camada profunda, e, para muitos, invisível, que é determinante no seu processo de produção.
Também é este elemento que permite ao pesquisador reconhecer o valor e significado das iniciativas proletárias e camponesas, tal como Tragtenberg faz quando analisa o caso da Ucrânia, de Kronstadt e dos Sovietes. Os acontecimentos históricos ganham visibilidade ao estarem envolvidos em um processo que é o da auto-emancipação do proletariado e de outros grupos explorados ou oprimidos e, assim, a vida e a morte não são apenas possibilidades abstratas ou fatos registrados, e sim manifestação de seres vivos, idéias, valores e sentimentos. O mesmo vale para as obras culturais, os livros não são vistos apenas como coisas materiais com textos escritos, mas como portadores de projetos, interesses, valores, sentimentos, concepções. Os livros são manifestações de seres humanos e se o livro é vazio, isto se deve ao vazio de quem o escreveu.
Enfim, Maurício Tragtenberg vai além da historiografia oficial e da história dos vencedores, por compartilhar com o proletariado a mesma perspectiva. A sua obra sobre a Revolução Russa, embora introdutória e resumida, reconta e faz reviver a história de uma sociedade que esteve à beira da transformação social e que perdeu a oportunidade, devido à derrota dos explorados diante dos seus “representantes”. Também apresenta uma lição metodológica, a de que o método não é algo reificado e fora das relações sociais, separado de quem o escolhe, produz e/ou usa. Desta forma, Tragtenberg recuperou a consciência teórica da Revolução Russa e fez avançar a consciência da história.


* Professor da UEG – Universidade Estadual de Goiás e UFG – Universidade Federal de Goiás; Doutor em Sociologia/UnB.
[1] Tragtenberg, Maurício. A Revolução Russa. São Paulo, Faísca, 2007; Tragtenberg, M. A Revolução Russa. São Paulo, UNESP, 2007.

Rosa Luxemburg e a crítica aos fenômenos burocráticos - Maurício Tragtenberg

Rosa Luxemburg e a crítica aos fenômenos burocráticos

MAURÍCIO TRAGTENBERG

Às vezes fico pensando em que medida temos tantos viúvos de Rosa Luxemburg. A gente falava entre a gente, isso há quinze anos atrás. Comecei a me interessar pelos malditos eternos problemas, como dizia Dostoiévski, em 45 ou 46. Quando caiu a ditadura de Vargas, eu era mocinho e autodidata; comprava um jornal em São Paulo, na Praça da Sé, um semanário chamado Vanguarda Socialista, editado pelo Mário Pedrosa, que depois ia ser um dos fundadores do PT. Era um jornal incrível. Naquela época colaboravam Karl Korsch e James Farrow (até Edgar Carone aparecia nas fotografias!). A Revolução Russa e as “Questões de organização da social-democracia”, textos de Rosa, apareciam ao lado de trabalhos de Bukharin, Hilferding e Kautsky. E a gente se punha a par dos grandes dilemas do marxismo. É como eu digo: pode-se ser antimarxista, mas não se pode desconhecer o marxismo. Como uma espécie de marxista anarquizante, vou explicar melhor. São tão importantes as teses econômico-sociais de Marx que até hoje a esquerda não apresentou coisa melhor. Todavia, o anarquismo tem uma contribuição no nível das superestruturas, no nível da análise dos movimentos sociais, da luta contra a burocracia – essa desgraça do nosso século – e no da defesa da liberdade como valor.
Embora não seja libertária, Rosa Luxemburg faz uma defesa séria da liberdade política. O liberal adotava a liberdade política para justificar a desigualdade econômica. Penso que a esquerda deve adotar a liberdade política para caminhar para a igualdade econômica. Essa é uma diferença muito grande entre uma posição de esquerda e uma posição liberal clássica, especialmente aqui neste país de liberais que não liberam jamais. Basta considerar que no Império nossos liberais eram escravocratas e que as grandes leis contra a escravidão vieram de ministros conservadores. Na República, os nossos liberais, que sempre planejaram golpes de estado, chegaram à vitória em 1964. Faz muitos anos o nosso presidente [1] pertencia à ala jovem da antiga União Democrática Nacional, que, além de não ser democrática, pregava o golpe do estado. Era mais americanista do que brasileira. 
Coube a mim o tema “Rosa Luxemburg e a crítica aos  fenômenos burocráticos”. Pensei que o subtítulo da palestra poderia ser deus-e-o-mundo. A melhor maneira de ficar fiel ao espírito de Rosa não é só participar de um seminário erudito, mas é destacar uma coisa que o velho Lênin já previa em relação aos revolucionários. Devo dizer que, neste país, revolucionário é uma espécie em extinção. Em O Estado e a Revolução – é sempre bom lembrar – Lênin diz que os revolucionários quando vivem são perseguidos, caluniados e desmoralizados; mortos, se convertem em santos e heróis, mas castra-se o conteúdo revolucionário do seu discurso para enganar assim as classes oprimidas. E com Rosa está acontecendo algo semelhante, um tipo de confusão entre socialismo e social-democracia.
Em primeiro lugar, os cretinos que falam que a social-democracia é boa para o Brasil não percebem que ela é a forma moderna da reprodução do capital. Em segundo lugar, tem tanto a ver com Marx como minha avó tem a ver com a bicicleta ou a eletricidade. Os social-democratas têm uma origem lassaliana, especialmente na Alemanha, em termos de socialismo nacional. Basta ver a correspondência de Marx para ver que ele, Lassalle, era mais bismarckiano do que propriamente marxista. Ocorre com a social-democracia o que vai ocorrer com muitos partidos de esquerda. É um grande dilema da esquerda mundial: criam-se organizações para cumprir determinados fins, criam-se partidos políticos, estruturas como a social-democracia. Esta, uma máquina imensa criada entre 1880 e a Primeira Guerra Mundial, na República de Weimar, irá continuar, porém cada vez menos social e cada vez mais democracia, uma democracia bem à moda da casa como sempre houve na Alemanha, que sempre foi um país de súditos, nunca um país de cidadãos, porque lá a revolução burguesa não teve a radicalidade dos Estados Unidos, da França e da Inglaterra; também lá o liberalismo era como no Brasil, um liberalismo para inglês ver. E realmente para inglês ver, porque a tradição burocrática e a tradição junker na Alemanha se juntaram ao capitalismo. Dessa contaminação vai sair um pseudoliberalismo, uma pseudademocracia. Mesmo no plano ideológico, a Alemanha é muito mais pietista que liberal. Nunca houve uma ideologia liberal consistente na Alemanha; um dos poucos liberais foi Marx Weber, um liberal desesperado porque era alemão com idéias inglesas. Mas a radicalidade da revolução burguesa na Inglaterra não se repetiu na Alemanha. Então, o chamado liberalismo avançado nunca teve oportunidade de se desenvolver. Se não morriam, acabavam depois de velhos à direita; se morriam em tempo, pelo menos conservavam a imagem. Foi o caso de Marx Weber.
Essas organizações são criadas para cumprir determinado fim. Cria-se, então, uma máquina com funcionários, militantes, jornalista e ideólogos oficiais. E no processo a atividade-meio fica fim. E o fim é esquecido. Como no caso das Igrejas. Aliás, Rosa Luxemburg tem um belo texto sobre o cristianismo primitivo quando era cristianismo. As Igrejas existem para salvar as almas, teoricamente. Mas, no processo de salvação das almas, criam uma burocracia de coroinhas, padres, bispos, arcebispos, cardeais e papas. E o que ocorre? O meio fica fim; e o fim é esquecido. A auto-sustentação da burocracia nos cargos administrativos fica o central, e a grande mensagem de mudança social fica para as reuniões de domingo em família ou para as atividades políticas que eu chamaria de rotina ou meramente formais: reunir no dia 1º de Maio... Por exemplo, odeia-se o imigrante que está trabalhando no país, considerando-o um desgraçado fora da cidadania, mas no dia 1º de Maio canta-se a “Internacional”. Primeiro vê-se o proletariado do seu país sob um nacionalismo bem século passado, mas no dia 1º de Maio,quem não canta a “Internacional”? Tornou-se um ato ritual.
Então é necessário dizer que há dois lados nos processos de burocratização, o da mentira e o da verdade; porque a realidade é ambígua. O lado da verdade, não há dúvida, é que o nascimento e o crescimento da social-democracia na Europa corresponde ao desenvolvimento do capitalismo.
Em segundo lugar, há a necessidade de o capitalismo cooptar a classe trabalhadora para os seus projetos. E não é por acaso que a legislação social alemã, antes mesmo da hegemonia da social-democracia, mesmo sob Bismarck, era a primeira legislação social do mundo. Por quê? Porque o estado bismarckiano já percebia essa necessidade. Ele só podia usar a lei anti-socialista na medida em que, ao mesmo tempo, cooptasse os trabalhadores para o âmbito estatal-burocrático. Pouco depois passou a lei anti-socialista, e o partido social-democrata ficou legalizado. Mas os instrumentos estatais de cooptação da classe trabalhadora – os direitos sociais, direitos de férias, os institutos de auxílio ao trabalhar em área médica ou cultural – se mantiveram como aparelhos de estado. Então, o crescimento e a ampliação da social-democracia caminham com o crescimento e a ampliação do capitalismo. O projeto social-democrático, inicialmente revolucionário (pelo menos no velho Engels), à medida que avança – o partido social-democrata ganha milhões de adeptos, ganha centenas de deputados no Reichstag, ganha uma imprensa forte e um corpo editorial, de editores que publicam livros lidos aos milhares pelos trabalhadores – ocorre uma perversão na história: os revolucionários do período inicial se tornam funcionários. Aparece então a base social do chamado reformismo, que Rosa define como oportunismo político. Rosa opõe-se a esse processo de burocratização não só do partido, da alma do partido, como também do projeto político da social-democracia. Esta se tornava cada vez mais democracia no sentido capitalista e menos social no sentido de mudança. Imaginem que na II Internacional havia cidadãos como Bernstein e Van Kohl, que pregavam o colonialismo socialista! Mas não é só o caso da Alemanha.
Na França, o gabinete Mitterrand, a social-democracia faz a experiência de um regime social-democrata em regime capitalista. Lembro-me de um companheiro, meu orientador de tese, que, na televisão, justificava a necessidade de haver um operário na presidência da República. Duvido dessa necessidade. McDonald, primeiro ministro inglês, reprimiu as grandes greves dos mineiros da década de 20; Ebert, um operário. Foi nada mais nada menos do que um dos assassinos indiretos de Rosa Luxemburg e encaminhou a revolução alemã para os trilhos da lógica do capital. Então, às vezes, eu me pergunto se é tão importante haver um operário na presidência de uma república capitalista. Sinceramente, tenho grandes dúvidas a respeito: os exemplos históricos falam contra isso.
Mas o que havia de real na social-democracia, de ganho para o operário, eram os direitos sociais. Os direitos sociais são ganhos reais da classe operária européia sob a social-democracia. Mas é claro que são instrumentos de legalização dessa classe. Edelman, um jurista francês, escreveuA legalização da classe operária, livro em que mostra quantas vezes a legalização pode significar a cooptação dos dominados, a integração na máquina burocrática estatal e a conversão das grandes idéias de mudança num cemitério de esperanças perdidas.
Também é verdade que a social-democracia correspondia ao desejo de uma fração importante dos trabalhadores alemães pelas reformas sociais, porque ninguém pode viver de idealismo durante cinqüenta anos. Isso vamos perceber no processo da revolução alemã. Há um americano, que é alemão, Barrington Moore, um americano sério, de formação marxista, que tem um trabalho notável, Injustiça, cujo subtítulo é “O que leva as pessoas a aceitar a dominação e o que leva as pessoas a se opor à dominação”. Ele reconstrói o quadro da revolução alemã de 1918, baseado em biografias de trabalhadores alemães. O trabalhador alemão sempre teve um nível cultural alto, e era comum escrever sua autobiografia. Quando eclode a revolução de 1918, os mineiros alemães tomam a frente e formam um exército vermelho. Lutam até o fim. Mas os metalúrgicos não participam com essa intensidade. Barrington mostra, através da autobiografia dos metalúrgicos alemães, e existência de um certo conservadorismo na classe operária e que, nesse conservadorismo, ele clama por proteção estatal via social-democracia. Todo processo social é ambíguo: tem um lado de verdade, quer dizer, realmente a ala direita da social-democracia que encaminhou a revolução para os trilhos do capital teve um certo apoio de algumas camadas dos trabalhadores alemães. Isso não quer dizer que a classe, no seu conjunto, o apoiasse, senão não haveria nem revolução. Barrington Moore mostra que os mineiros do Ruhr tomam a vanguarda e formam os exércitos vermelhos, ao passo que o pessoal metalúrgico, muito mais conservador, aguarda as palavras de ordem dos chefes da social-democracia, Ebert, Noske, Scheidemann e outros, os chefes burocráticos da social-democracia.
Toda a polêmica de Rosa Luxemburg contra Bernstein não é apenas de marxismo contra revisionismo. É mais ampla, e por isso atual, clássica. Por que fazemos um seminário sobre Rosa? Porque ela é clássica, e todo clássico é atual. E em que ela é atual,nas críticas a Bernstein? Não se vão reconstruir aqui a crítica a Bernstein e sua resposta. Todavia, se analisarem duas críticas centrais de Rosa, tem-se o seguinte: o sindicalismo puro não é caminho do socialismo. O sindicato existe como um meio de defesa do trabalhador contra o capital, e não mais do que isso. O sindicato existe para preservar o setor dois da economia. Criar o consumidor que, via aumento de salário, vai consumir mais produtos do setor dois, o setor de bens de consumo. E ponto final. E o que é que nós vemos hoje? Realmente essa panacéia de que sindicato, dentro da linha revisionista, poderia ser a ante-sala do socialismo, o sindicalismo em si, está desmentida pela realidade do século XX, em que temos, hoje, uma coisa que no tempo de Rosa estava em formação: o capitalismo sindical. Este é uma formação capitalista em que o trabalhador contribui indiretamente para as grandes burocracias sindicais, que se tornam donas de bancos, jogam no mercado de ações e têm lojas de departamentos e fábricas.
Qual é a origem disso? É a Istradut, a central sindical de Israel, fundada em 1920, dois anos depois da revolução russa e , portanto, vinte e poucos anos antes da criação do Estado de Israel. Essa central sindical já admitia o capitalismo sindical. Cheguei a encontrar em São Paulo um dos líderes dessa central – eles têm fábricas, lojas, jogam na bolsa e têm até um departamento sindical! Perguntei-lhe: “Ótimo, mas como é que vocês defendem o trabalhador, vocês têm tempo para isso?” Disse-me que tinham uma pessoa encarregada de defender a classe operária. Como dizia Camões, é muito amor para tão curta existência... Mas esse capitalismo sindical é uma realidade hoje na França e na Alemanha. Nas Estados Unidos nem se fala. As centrais sindicais são grandes empresas. Há grandes burocratas com grande poder de barganha no quadro do capitalismo.
Isso leva a uma outra questão, a velha crítica dos comunistas de esquerda, um pessoal muito discutido e pouco lido. Panekoek, Herman Gorter, por exemplo, os comunistas de conselhos, gente que não aparece em bibliografia marxista acadêmica comum, mas já é hora de começar a aparecer e ser discutida nas universidades. Existe um português atual, João Bernardo, que está na linha do comunismo de conselhos. Estes mostram como o sindicalismo sob o capitalismo tende a ser um fator contra-revolucionário, e enfatizam uma certa linha presente em Luxemburg, que é a idéia dos conselhos. Mas isso vamos ver mais adiante.
Há outro lado. Rosa, na sua crítica, mostra atualidade: o cooperativismo também não é de forma alguma caminho para o socialismo. Temos o exemplo paulista da Cooperativa Agrícola de Cotia, que é um grande oligopólio de hortifrutigranjeiros no melhor esquema capitalista.
A terceira panacéia é a do parlamentarismo. Como diz Gorter, escrevendo a Lênin: “Você nos critica na doença infantil do esquerdismo no comunismo, por que não aproveitamos o parlamento para denúncias políticas?” Bom, em primeiro lugar, o trabalhador felizmente não lê diário oficial, e as discussões parlamentares saem em diário oficial. Em segundo lugar, a luta parlamentar cria muito mais ilusões do que ajuda na luta. As ilusões que ele cria são muito piores para o movimento de trabalhadores do que qualquer denúncia que possa fazer no processo de luta. E um outro problema, que é um belo instrumento de cooptação da pequena burguesia da nossa classe, é que nós podemos mudar de profissão e podemos ter uma aposentadoria aos oito anos de parlamento, e um salário relativamente melhor que professor universitário. O parlamento pode ser um vínculo de ascensão social para a pequena burguesia e, se se entra por um partido de esquerda, não se tem sentimento de culpa, porque há a estrela vermelha que limpa qualquer culpa.
No caso de Rosa, o importante é a absoluta coerência entre meios e fins, entre vida e discurso, coisa rara nos dias que correm. Nos dias que correm, como diz Maquiavel, vemos discurso de leão; e depois esse pessoal radical, ante o poder, assume forma de raposa. É o jogo do leão e da raposa. Pode-se ter um discurso de leão ante os estudantes e um discurso de raposa ante um reitor de uma universidade ou um ministro de Estado, porque poder é poder.
Um dado central, patrimônio do movimento socialista em geral, é a exigência da coerência entre discurso e prática. Não é possível ser altamente avançado como homem público, mas bater na esposa e escravizar os filhos na vida privada. O que se é na vida privada é a base do que se vai ser na vida pública. Não há dúvida de que um tirano nas relações diretas procurará, nas posições de poder na vida pública, tiranizar os outros. É importante em Rosa Luxemburg essa exigência de coerência até quase desumana, terrível, entre o discurso, a existência e a prática política. Esse é um produto que está fazendo falta no mercado da esquerda mundial. Creio que o que domina é muitas vezes o contrário: a pessoa é muito libertária na vida pública, ante o grande público, mas na esfera de relações diretas é altamente tirânica.
Então, o que ocorre? A social-democracia, como uma organização, tem fins. Quer realizar o socialismo. E, para realizar esses fins, cria atividades-meio tremendas; mas os meios ficam fins, e os fins se esquecem. Quando Hitler toma o poder em 1933 – uma desgraça terrível para o mundo, uma derrota do mundo, não apenas do proletariado alemão – qual a preocupação dos social-democratas de direita e de muitos sindicalistas? É salvar a organização: mimeógrafo, off-set, os prédios do partido, os estoques de papel, etc. A preocupação desse pessoal é salvar a organização, e isso nos coloca uma outra questão em que todo marxista deve ficar de olho: pode haver o fetichismo da organização, e uma esquerda não pode cair no fetichismo. A organização não pode ser uma espécie de Deus na terra. Toda organização é meio para realizar fins. Na hora em que fica um fim em si, tende a perder o sentido. E aí surge o fetichismo dessas pessoas que falam partido com p maiúsculo, esquecendo que ele é um instrumento da história, que tanto pode ser o instrumento de realização quanto o contrário. Isso depende da relação de forças entre as classes sociais.
Daí o certo ceticismo de Rosa em relação aos aparelhos e a valorização da ação direta do trabalhador. Rosa anarquista? Não. Ela foi sempre mulher de partido. Faço uma leitura de Rosa, mas conheço os limites. Quando responde a Lênin que “os erros do movimento de massas são mais importantes para a classe operária que a infalibilidade do maior comitê central”, tem a razão histórica a seu favor. As grandes derrotas da classe trabalhadora foram devidas a quê? Aos grandes comitês centrais, que eram grandes organizadores de derrotas. Isso foi a social-democracia de 1918; foi a revolução austríaca de 1934, enterrada pelos austro-marxistas; foi a revolução chinesa dos anos vinte, quando o partido se dissolve no Kuomintang, e Chiang Kai-shek organiza uma das maiores repressões da história moderna contra esse mesmo partido; as frentes populares de 1934, que eram mais frentes e pouco populares; as frentes populares da guerra civil da Espanha, em que o trabalhador se viu como uma espécie de massa de manobra da burguesia liberal, e isso não evitou o fascismo e tampouco a Segunda Guerra Mundial. Então, quando Rosa colocava o problema da participação de base, o papel dos conselhos de trabalhadores e sua importância para o movimento socialista, estava na melhor tradição marxista. Explico por quê.
Marx valoriza um conceito esquecido no marxismo-leninismo, a associação. A I Internacional de Trabalhadores chamou-se Associação Internacional dos Trabalhadores. Marx dizia que o operário vale como força coletiva, mas pouco como indivíduo. Só tem valor como força coletiva. E o que vai ocorrer? O operário, para suprimir a concorrência que o capital estabelece entre ele, parte para a luta reivindicatória. Aí se organiza em forma de associação entre iguais e organizações horizontais em que todos são iguais, e nenhum é mais igual que o outro.
Através da história das revoluções contra a burocracia (vejam bem o Leste europeu!) sempre volta a forma de conselhos. Por que os húngaros, nos anos 50, vão se opor à burocracia do partido, organizando uma revolução com base em conselhos? Por que os poloneses procuram uma forma próxima a conselhos para reagirem à burocracia que quer falar em nome deles? Por que os tchecos, sob Dubcek, também recorreram aos conselhos? Isso coloca a seguinte questão para a esquerda: toda vez que o movimento de trabalhadores é orgânico, vem da base para o topo, organiza-se de forma horizontal. E esse é o sentido revolucionário do movimento dos trabalhadores. Portanto, no universo de discurso de Lênin, é importante saber se a greve é econômica ou política. Daí surge a discussão do espontaneísmo ou não. Lênin diz que o movimento operário jogado a si mesmo é espontaneísta, e só o partido o organiza. Essa é uma linha de pensamento respeitável, mas é possível ser marxista sem ser leninista. Como a própria Rosa o foi. Isso quer dizer que o próprio movimento de auto-organização pode começar espontâneo, mas, no processo da luta, a classe se organiza: greves que começam com reivindicações econômicas passam a questionar a divisão de trabalho, passam a questionar a hierarquia na fábrica, greves contra a cronometragem, contra o ritmo de trabalho, não s;o por reivindicações econômicas. Nesse processo, a organização das categorias operárias é em forma de associação, uma forma de organização horizontal que supera a divisão dirigentes-dirigidos. Numa comissão de fábrica, de luta, num conselho de fábrica, os operários são dirigentes e dirigidos. Não existe aquela separação rigorosa de dirigente na frente e dirigido obedecendo a palavra de ordem. As duas coisas se dão ao mesmo tempo. O trabalhador se reúne não só para lutar contra a hierarquia e o ritmo de trabalho, mas também para reconquistar um saber que o capitalismo expropria. Nas fábricas, muitas vezes, temos operários que ensinam muito engenheiro, especialmente desenho industrial.
Então, a organização das lutas espontâneas é o processo de auto-organização de uma classe numa comunidade de existência. Ou seja, não há separação entre organização entre organização e espontaneísmo porque não há separação entre luta política e luta econômica. Marx nunca fez tal separação. Logicamente, o que ocorre é que a influência da vitória da Revolução Russa e a hegemonia de Lênin no movimento marxista levaram justamente a institucionalizar pretensas oposições, como espontaneidade-organização, luta econômica-luta política, e também um certo fetichismo da idéia do partido, que no início era meio e depois se converte em fim em si mesmo. Ocorre então a luta reivindicatória. O que é uma greve revolucionária? Não é que ela tenha reivindicação política e econômica. O caráter revolucionário de qualquer greve operária está nas formas de organização horizontal que ela cria. E é isso que o capital não suporta, a quebra de hierarquia. Em 1968, quando os estudantes invadiram a universidade, quebraram a hierarquia acadêmica aqui dentro. Eu me lembro, estava em São Paulo, e dei curso na universidade ocupada pelos estudantes; foi um dos melhores cursos que dei na minha vida. E o que ocorreu? Veio o Ato Institucional nº 5. Porque o status quo não admita quebra de hierarquia na Universidade, porque isso significava um ponto de partida perigoso para a quebra de toda a estrutura social de dominação. Qual foi a grande justificativa dos militares para o golpe de 1964? Os sargentos e os marinhos quebraram a hierarquia militar. E o golpe veio para restabelecer a hierarquia militar. Isso também ocorre no campo do trabalho. Quando se quebra a hierarquia, tem-se uma repressão violenta. Mas não há outra possibilidade de o movimento social avançar senão através da quebra das hierarquias estabelecidas pelo status quo como ele é, seja em nível de disciplina fabril, da disciplina da Igreja, da hierarquia acadêmica, ou o que seja.
Nesse sentido, a defesa que Rosa faz dos movimentos chamados espontâneos, na Revolução Russa de 1905 e 1917, e também no processo alemão, inserida num contexto de luta contra o reformismo da social-democracia, é de uma atualidade muita séria, na medida em que vivemos sob o signo da burocracia, seja sob o capitalismo privado ou não. A nossa relação, mesmo agora, com Rosa Luxemburg como tema, se dá pela mediação de uma instituição burocrática do Estado, a UNESP. Vejam bem, eu não sou fatalista. Houve um discípulo de Weber, um judeu italiano chamado Michels, que escreveu um trabalho célebre de sociologia política. Ele era fatalista, pois achava que a burocracia é um destino. Ele acabou fascista. É claro, o fatalismo leva a isso. A mesma realidade que cria a burocracia, cria a antiburocracia. E por isso a gente está fazendo o seminário sobre Rosa Luxemburg aqui dentro. A mesma realidade que transforma grandes movimentos de renovação social em grandes máquinas conservadoras, a mesma realidade que transforma ideologias de mudanças social, que tira o conteúdo revolucionário dela e o transforma em mera discussão de texto, essa mesma realidade cria o oposto, antiburocracia. Só que geralmente as forças contra isso estão com aqueles que não têm nenhuma participação, seja no poder econômico, seja nas decisões do poder político. Quer dizer: a grande massa dos que estão afastados das condições de trabalho, da fábrica, os trabalhadores, e que não dominam também as condições de pesquisa e de estudo na Universidade, as quais pertencem à burocracia de estado, esses são os elementos que eu chamaria anti. A mesma realidade que cria o processo de burocratização, cria a reação a esse processo. e estar vivo significa estar aberto e atento às reações a este processo.
Está claro que Rosa fez a crítica do processo de burocratização, do processo alemão, da social-democracia alemã, dos partidos da II Internacional. Lênin, pr sua vez, escreveu sobre a falência da II Internacional, a traição, etc. Há níveis de traição, é possível. Cria-se então a III Internacional, com sede em Moscou. Rosa já previa que isso ia dar galho. Dizia que a sede não podia ser em Moscou, pois qualquer assunto do Estado soviético iria influir no movimento internacional; e isso não era interessante. Propunha que a sede da III Internacional não fosse obrigatoriamente em Moscou. Mas isso foi deixado de lado. Era mais uma mulher que muitos consideravam até meio histérica, briguenta, que estava chateando, perturbando o santo sossego dos barrigudos carecas de uma burocracia nova.
Então ela acompanha a revolução russa e escreve um livro clássico, A Revolução Russa. Nele situa os grandes dilemas da revolução. E mais do que isso. Embora festeje o surgimento da revolução e o apoio que deve ser dado a um processo revolucionário, ela enuncia um cuidado que se deve ter entre um apoio e um processo revolucionário e uma visão acrítica, beata, de sacristia, desse processo revolucionário. O que, infelizmente, depois aconteceu em muitos segmentos da esquerda em que o espírito crítico passou longe. Com Lênin aconteceu o que ele temia, a santificação. Erigiu-se-lhe um mausoléu, mas quão longe hoje em dia se está de suas idéias centrais.
Rosa mostra o sentido do processo internacional da revolução russa. Era impossível estudá-la sem examinar o contexto internacional, a significação e a importância internacional. Lênin confiava muito na revolução alemã, pois queria juntar as riquezas naturais da Rússia com a técnica alemã. Mas a revolução alemã frustou-se. Rosa, ao contrário, diz que a alemã é uma caricatura de revolução porque o operariado alemão foi uma caricatura da luta de classes. Tem-se uma república que é proclamada, em que um governo social-democrata assume essa república, em que o presidente socialista, o operário Ebert, tem uma linha direta com o general Groener, um dos comandantes da repressão contra a esquerda alemã, auxiliado pelos corpos livres, as forças paramilitares da época. O fato de a revolução alemã ter sido derrotada teve uma importância terrível para a União Soviética: o isolamento tornou hegemônicas a fração Stálin e a teoria do socialismo num único país. Partiu-se para a industrialização a toque de caixa, e a burocracia teve um papel que, de certa forma, a burguesia desempenhou no Ocidente. Mas, desgraçadamente, isso vai ter outra importância vinte anos depois, porque a derrota da revolução alemã vai significar o isolamento, que leva a um refluxo dos revolucionários russos para os problemas internos: invasão estrangeira, guerra civil. É claro que o modelo stalinista tem uma base interna para se apoiar, porque também muitos morreram durante a guerra civil, e os que chegaram ao poder depois da guerra não tinham fito a revolução. Isso ocorre com todo processo revolucionário.
Então o modelo stalinista se consolida, mas para a Alemanha e para o mundo isso vai ser uma desgraça. Porque, justamente sob a hegemonia desse modelo na III Internacional, vai surgir, vinte e poucos anos depois, a desgraçada teoria do social-fascismo. Não que os democratas não tivessem também sua parte de culpa. Eles contribuíram muito para o fortalecimento do conservadorismo alemão. Mas é que o social-fascismo afastou completamente o partido comunista da social-democracia. Isso foi decisivo para a ascensão de Hitler.
Podemos pensar juntos uma outra coisa que está fora do universo de discurso de Rosa. Não estou misturando alhos com bugalhos. É uma coisa que me remói a alma há muito tempo: toda vez que se reprimem os radicais num processo revolucionário, abre-se caminho para a restauração conservadora. Na Revolução Francesa, Robespierre reprimiu os enragés, que representavam as camadas mais populares, artesanais, e queriam levar adiante a revolução. Ao fazer isso, Robespierre cria as condições para cair na guilhotina, para o Termidor. Será guilhotinado e haverá uma restauração termidoriana no processo da revolução. Eu me pergunto sobre o processo da revolução russa. Felizmente ela ainda é uma grande desconhecida. Mesmo Trotski, na sua História da Revolução Russa, muito erudita e interessante, omite dois episódios centrais: a revolução camponesa na Ucrânia, que coletivizou as terras diretamente, com Makno; e as reivindicações dos marinheiros de Kronstadt contra a ditadura de partido único e por sovietes independentes do Estado e do partido. Tais fatos não aparecem nas histórias comuns da Revolução Russa; e são muito decisivas.
Na época dá-se na Ucrânia (que ocupa um quarto do território russo) uma revolução camponesa, autogestionária, que consegue coletivizar as terras diretamente e estabelecer contato com a cidade, para a troca de produtos; consegue também defender-se dos generais czaristas, que queriam restabelecer o czarismo. Essa revolução é destruída. Logo depois firma-se um tratado de auxílio mútuo entre a Ucrânia e o governo central de Moscou, representado por Lênin e Trotski. No entanto, durante o processo em que os camponeses coletivizam as terras diretamente, isto é, sem a intermediação do Estado, e expulsam a direita, na volta de uma das batalhas contra os generais czaristas, são destruídos pelo Exército Vermelho, dirigido pelo próprio Trotski.
Muitos dizem que o episódio de Kronstadt tinha de ser reprimido, visto que a Rússia estava cercada. Mas o fato é que Kronstadt era a vanguarda da revolução e fornecia a guarda pessoal para o palácio de Lênin, depois de 1917. Kronstadt desejava o quê? Desejava sovietes independentes do partido e do Estado, no sentido original da idéia de soviet: uma autoridade suprema que não se subordina a ninguém. A repressão aos radicais de esquerda na Revolução Russa está ligada a outro processo, que é o surgimento de uma política sem ética, a institucionalização da calúnia como arma política. Na época, Makno fora acusado de anti-semita, perseguidor de judeus; os marinheiros de Kronstadt, de agentes do capitalismo ocidental. Mentira. Basta conhecer os Izvestia de Kronstadt, jornais publicados no Ocidente, para constatar que as reivindicações eram pró-socialismo – com liberdade política – e contra a ditadura do partido único e seu fetichismo.
E depois, o que ocorreu? O próprio Trotski iria sofrer as conseqüências. À medida que é exemplo por Stálin em 1929 para a Turquia, surge uma campanha mundial de calúnias: agente de Hitler, agente do Intelligence Service inglês (naquele tempo não existia a CIA), agente do Mikado do Japão. Os seus seguidores iam ser perseguidos em todos os países sob a acusação de serem policiais.
Vemos que essas coisas se repetem em ciclos. Está na hora de parar com isso. Se a esquerda quiser ser realmente esquerda, se de fato pretender mudança social, não pode cair nessa coisa gelatinosa do fetichismo do partido, da representação parlamentar pela representação parlamentar. A história já provou que essas coisas levam as melhores esperanças socialistas ao fracasso.
É fundamental salientar que o legado mais importante de Rosa diz respeito à liberdade de pensamento. É preciso haver mais tolerância dentro da esquerda. Para ela, “A liberdade é sempre a liberdade daquele que pensa de modo diferente.” À medida que nos esquecemos dessas palavras, enterramos uma parte essencial do seu legado, uma das condições para o reerguimento da esquerda, de uma realmente esquerda.
Como diziam os espanhóis na época de Franco, “se necesita una oposición que se oponga”. Esse é o problema.

Professor  da Faculdade de Educação da UNICAMP.
Trata-se de José Sarney  

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Para Maurício Tragtenberg - Evaldo Vieira

Para Maurício Tragtenberg*
Evaldo Vieira

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Apresento meus agradecimentos pela lembrança de meu nome na homenagem ao querido amigo Maurício, falecido em 17 de novembro de 1998, com quem muito aprendi em todos os sentidos. Acredito mesmo que foi uma dádiva conhecê-lo.

Cumprimento afetuosamente a família do Maurício e digo-lhes que continuamos juntos. Saúdo seus amigos, para dizer que nós recebemos a oferenda de conviver com ele por todos esses anos, porque ele é daqueles que não passam. Giosue Carducci, em versos, diz: "Olhai as flores que também elas passam, olhai as estrelas que não passam nunca". Maurício representa uma dessas estrelas que não passam e vou lhes mostrar o motivo.

Lembro-me principalmente dos dias e das noites terríveis e solitárias de dezembro de 1968, há 30 anos: em meio a dificuldades de variada natureza, comecei a vislumbrar alguns dos elementos fundamentais na interpretação da vida humana: a lucidez, o conhecimento, a reflexão e os cuidados com os malefícios do poder. Esses elementos estão claramente expressos na existência de Maurício Tragtenberg e acham-se sintetizados em duas epígrafes por ele utilizadas, com destaque em seu primeiro e segundo livros: de Baruch Espinosa: "Ante os fatos nem rir, nem chorar, mas compreender"; de Walter Benjamin: "Só não há poder sobre os mortos".

O perene exercício da inteligência e o gosto pela leitura e pela pesquisa, com retidão, esmero e sinceridade, tornaram por vezes insuportável a sua presença em umas poucas instituições, embora o tenham singularizado em outras tantas, melhores e mais úteis à sociedade brasileira.
Principalmente a partir de 1968, as conversas prolongadas em longas viagens para dar aulas, as suas conferências, as suas palestras e suas outras atividades intelectuais levaram-me a descobrir o verdadeiro método de ensinar praticado por Maurício Tragtenberg.

Em poucas palavras, Maurício ensinava a ensinar, ensinava a ler, ensinava a pensar e ensinava a selecionar obras importantes e obras desimportantes e desnecessárias. Dava pouca ênfase na transmissão de informações e de conteúdos; dava muita ênfase na interpretação crítica e, sobretudo, na indicação das obras primordiais, mais imprescindíveis, conforme o interesse de cada um, independente do campo de estudo. Não existia área de conhecimento em que ele não trouxesse contribuição segura, válida, atual, referente a qualquer época. Tal abrangência relativa a obras, a artigos, a edições raras ou não, em diferentes línguas, vem confirmada nos escritos, especialmente nos livros.

Suas exposições revelavam sua pessoa, durante as aulas, as conferências, os debates ou as rápidas trocas de idéias: continham humor, erudição, clareza e simplicidade. Maurício falava para qualquer público, alheio aos rituais, aos encômios e à pompa. Visava, acima de tudo, manter conversação com qualquer pessoa bem intencionada, desde o porteiro do Tribunal até os fundamentalistas de todo gênero, mas previa os destinos da arrogância intelectual, do dogmatismo, dos assessores do poder e de seus senhores.

A docência no ensino secundário e no ensino superior, por décadas, significou para Maurício Tragtenberg um lugar de trabalho e de estudo, mas não significou seu único lugar, talvez não tenha sido sequer o principal lugar de ação intelectual. Falou em muitos recintos deste país, tendo apenas como recompensa a convicção ética e política de mudá-lo, tirando-o do domínio das oligarquias, das tecnoburocracias e dos salvacionistas. Maurício Tragtenberg não cultivou discípulos, mas dividiu seus conhecimentos com outras pessoas; não se ligou a grupos de qualquer tipo, mas manteve sua opção política de vanguarda; não se sujeitou aos esquemas e aos modismos acadêmicos, mas procurou expor suas análises com originalidade; não se preocupou em conceder entrevistas capazes de arrumar sua vida e sua trajetória política e intelectual, o que não é comum nos dias que correm.

A obra de Maurício Tragtenberg precisa ser reunida e organizada: aí está um desafio para seus leitores. Conheço muitos de seus ensaios publicados em revistas e jornais, dos quais destaco um sobre Max Weber. Antonio Cândido cita, no prefácio do primeiro livro de Maurício Tragtenberg, o ensaio denominado "A importância da literatura para o homem de sua cultura universitária, qualquer que seja a sua especialização". Segundo pude verificar quando revisei os originais da tese de doutorado, o estilo de Maurício aparece propriamente em seu segundo livro,Burocracia e ideologia, ao abandonar aos poucos uma sintaxe baseada em declinações, substituindo-a pela sintaxe portuguesa unida ao tom coloquial.

Para ficar unicamente nos livros que chegaram a mim, apesar dos desamores do autor por seu primeiro livro (Planificação: Desafio do século XX. São Paulo: Senzala, 1967), contra minha opinião manifestada muitas vezes a ele, afirmo com segurança que muitos dos capítulos ("A formação do espírito burguês na França"; "O espírito puritano"; "Concentração da produção" e "A rebelião de Crondstad"), a que acrescento a bibliografia consultada, constituem um tributo ao conhecimento dessas questões no Brasil, estando assim bem vivos.

Em geral, seu segundo livro (Burocracia e ideologia. São Paulo: Ática, 1974, com diversas edições) é mais conhecido e mais lido: coloca-se, no meu entender, como obra definitiva sobre o assunto, merecedora de tradução para outras línguas, pois não conheço outro escrito ao menos similar em análise, em erudição e em criatividade. Embora o texto componha uma totalidade, realço a segunda parte ("A crise da consciência liberal alemã"; "Max Weber"; "Burocracia: Da mediação à dominação").

Quanto a seu terceiro livro (Administração, poder e ideologia, publicado pela Editora Moraes, de São Paulo, em 1980), chamo a atenção para a fineza do exame da "ideologia administrativa", da "co-gestão", do "participacionismo", além do testemunho histórico de uma época.

Maurício Tragtenberg não se empenhava na divulgação de sua obra. Ela deve ser reunida, tanto os livros e os ensaios em revistas especializadas quanto os artigos e as entrevistas em jornais e outras publicações. Será, com certeza, uma tarefa de várias pessoas, porque Maurício também pesquisou profundamente este país, sendo um especialista em história política, econômica e cultural do Brasil.

Não existe exagero em dizer que foi o intelectual mais completo que conheci nesta segunda metade do século XX. Costumam dizer que há intelectuais que são admiráveis no exercício de sua inteligência. No caso de Maurício Tragtenberg, além do exercício admirável da inteligência, digo ainda que ele viveu a honradez com inteligência.


* Texto lido no "Ato Público in memoriam do professor Maurício Tragtenberg", realizado no Instituto Cultural Israelita e na Universidade Popular Livre, no dia 17 de dezembro de 1998, 30 dias após seu falecimento, em São Paulo - SP.

Publicado originalmente na Revista Educação e Sociedade: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-73301999000100001&script=sci_arttext

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Email de 10/09/2009

Caro Ozai,

Li teus trabalhos com as referencias ao Prof. Mauricio Tragtenberg. Fui aluno dele no biênio 1971-1972 quando cursei a Escola de Sociologia e Politica em SP. De fato, ele era uma pessoa singular que conjugava as qualidades de educador (raro) com a maestria de um virtuoso nas matérias que ministrava.

Obrigado e abracos,

Avraham Milgram

[email recebido em 10/10/2009]

sábado, 10 de julho de 2010

BAR-ZOHAR, M. Michel. Ben Gurion: O Profeta Armado. São Paulo: Editora Senzala, 1968, 386 p. - Apresentação do tradutor brasileiro

Maurício Tragtenberg

Dizia Napoleão ser a política, a forma moderna de tragédia. Por outro lado, a pureza dos princípios não só tolera como requer as violências e Israel não é a exceção. O livro tem como única finalidade recompor a imagem de Ben Gurion após o “caso Lavon”.

Ben Gurion, o criador do Exército Nacional, o pai do Estado de Israel, o vitorioso estrategista da guerra de Independência, é, como o fôra Trotski também, atualmente um profeta desarmado, um carisma no ostracismo, sofrendo uma “desgraça” inerente à condição da ação política.

Aceitando a chance da glória, o político aceita o risco da infâmia, um e outro “imerecidos”. A ação política é “em si” impura na medida em que é uma ação sobre o outro, dirigida a grupos. Neste sentido nenhum político é inocente. Governar é prever; e existe o imprevisto: eis a tragédia.

Neste sentido, descortina-se o “caso Lavon”. Este fundador do movimento pioneiro GORDONIA, veio a Israel na segunda Aliá (imigração) da década de vinte. Membro do movimento Kubatziano “coletivista agrário” exercei altos cargos no Hapoel Hatzair (o jovem trabalhador) que serviu de base ao Mapai (Partido Trabalhista de Israel) ocupando o cargo de Ministro da defesa e Secretaria Geral da Histadrut (central trabalhadora). Atualmente com 70 anos é um símbolo de seriedade, honradez, respeito pela juventude universitária. Parecem-nos inadequados à sua real personalidade, os conceitos emitidos por Bar-Zohar nesta obra.

Lavon é um político, portanto não é “inocente”. A maldição da política consiste em traduzir os valores em fatos. Neste campo toda vontade vale como previsão e todo prognóstico é cumplicidade. Neste sentido, Lavon fôra absolvido pela Comissão Especial de Inquérito formada a mando de Eskhol a respeito da “Operação Egito”, operação de espionagem que terminara num fiasco com a detenção dos implicados por Nasser.

Lavon vivera dramaticamente o conflito entre a moral da responsabilidade que julga conforme os efeitos dos atos e a moral da consciência, que coloca a necessidade da obediência incondicional dos valores quaisquer que sejam suas conseqüências. Sem dúvida, ele ordenara o incremento das ações de represálias aos Fedayn (bandos árabes armados), ocasionando inúmeras mortes. A morte na ação política ou militar não é um mundo que termina, é um comportamento que se extingue; daí ser impossível governar com o “Sermão da Montanha” ou com o “imperativo categórico” de Kant. No entanto, perdem qualquer fôro de verossimilhança as palavras que Bar-Zohar coloca na boca do humanista Lavon, ao referir-se às ações antiárabes. “Pode destruir tudo, coisa e pessoas; os árabes não usam móveis luxuosos”.

Sentimos que aqui fala mais o adepto do carisma de Ben Gurion do que o repórter imparcial dos fatos. O autor apresenta um histórico da formação do Estado através de uma Personalidade, no sentido de um Plutarco moderno, muito próximo dos “Panegíricos Latinos’. Ben Gurion, o organizador sindical, o homem de Biltmore, o organizador do Exército, do Estado judeu é, sem dúvida, uma figura épica. É um carisma na época atômica: essa evolução é que o livro descreve.
Apenas devemos notar que certos aspectos que o autor atribui a Ben Gurion são o “resultado” de uma atitude conjunta do governo e do Mapai, como o estabelecimento de relações com a Alemanha Federal, o estreitamento de relações com a França, que forma objetos de uma decisão global do governo.

Assim, perpassa pelo livro da história de um povo vinculado ao surgimento e declínio de um personagem, Ben Gurion, carisma cheio de boas intenções, mas, por sua ação, profundamente munido de messianismo profético que o afastava de qualquer diálogo com os homens de sua geração. A sua maior penetração no meio dos jovens deve-se, possivelmente, ao “Velho” encarnar o Pai que ansiosamente a juventude procura numa fase de seu desenvolvimento.

Sem dúvida que a absolvição de Lavon e ostracismo de Ben Gurion supõem a contingência na História, sem a qual não há culpados, em política, e a nacionalidade na História, sem a qual há loucos. Não há o “outro” como existência pura. Uma consciência pura num estado de inocência original inexiste. São os pactos com o demônio: o de reparações coma a Alemanha, a aliança com a França e a Inglaterra, por ocasião de Suez, como reação ao fornecimento maciço de armas ao Egito pela Checoeslováquia. Tudo isto mostra que em política inexistem belas almas, perde-se o álibi das boas intenções. Não há escolha entre pureza e violência. A pureza das idéias sionistas socialistas coexiste com a campanha do Sinai, com as armas francesas. Há apenas a escolha entre as diversas formas de violência. Em suma, quem tem a razão histórica (armada) pode dispensar a razão teórica (ideológica).

Num mundo onde só há poder de alguns, resignação de outros, o profeta amado, descrito por Bar-Zohar, constitui realmente a versão hebraica de Maquiavel e o “Príncipe” é substituído pelo “Velho Testamento”.

O Profeta Armado se constitui numa súmula da formação do Estado de Israel, e sua luta pela coexistência comum com o árabe, suas tentativas fracassadas. Surgindo Israel com a complacência do Ocidente, porém, sem contar com seu apoio total, o “pacto periférico” idealizado por Ben Gurion com a Etiópia e a Pérsia constitui-se numa resposta diplomática, no plano árabe, seu “engajamento” com a França, sua resposta à política calculista do “State Department” e à rejeição soviética.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Homenagem ao Maurício

Homenagem ao Maurício Tragtenberg, na entrada da Biblioteca da EAESP-FGV.
Foto: Roberto Jorge Regensteiner, aluno do Maurício Tragtenberg nos idos dos 1970 na EAESP-FGV.

sábado, 14 de novembro de 2009

O nacionalismo como ideologia da desconversa - por Maurício Tragtenberg

A população brasileira, especialmente os assalariados urbanos e rurais, tem baixo envolvimento ideológico, tanto quanto as classes dominantes.

Os primeiros, especialmente após a Revolução de 30, com a criação do Sindicato Único atrelado ao Estado que vive da contribuição sindical e taxa assistencial descontada compulsoriamente de quem trabalha, na sua maioria, estão fora dos sindicatos e dos partidos políticos. Há categorias operárias, em que 70% não conhecem o nome dos diretores, 60 a 70% não sabem onde está instalada a sede de seu sindicato.

No que tange aos partidos políticos, é válida a afirmação de Oliveira Vianna: “não são entidades de direito público, são entidades de direito privado.” O proletariado urbano até bem pouco tempo seguia coronéis urbanos (Prestes, Getúlio Vargas), a classe média mais qualificada e alguns setores operários seguiam Jânio, a classe média desqualificada e o ‘lúmpen’ seguiam Adhemar de Barros, enquanto ‘líder carismático’. Quanto aos partidos ideológicos, Ação Integralista Brasileira ou PCB, víamos o primeiro, na sua maioria, integrado pela classe média urbana e setores da burocracia civil e militar que seguia Plínio Salgado como ‘Chefe Nacional’; o segundo só fora partido de massas entre 1933/35 e 1945/7 atrás do carisma prestista.

A classe dominante brasileira que tem o poder econômico ‘brincava’ de formar partidos políticos. A União Democrática Nacional era desunida, planejava golpes de Estado (vide 1964) e era pouco nacional; o Partido Social Democrático era pouco democrático e no plano social, um zero à esquerda. Como hoje, o Partido Democrático Social nada tem que ver com o título e o Partido Trabalhista tem tudo, menos trabalhadores de linha na sua direção, vive da exploração política de um morto cujo carisma sua sobrinha pretende incorporar; é o carisma de Getúlio que Ivete quer reproduzir.

Isso não impediu a ‘sagrada união’ desses partidos com facções do PMDB na votação da lei de arrocho, exigida pelo Fundo Monetário Internacional.

E o nacionalismo o que tem que ver com isso?

Entendo que o ‘nacionalismo’ como fenômeno na política nacional emerge após 30 com o ‘Tenentismo’ disposto a reformas sociais e políticas. Porém, Getúlio ap nomeá-los capitães, ‘cooptou-os’, integrando-os à máquina do Estado Novo.

A Ação Integralista Brasileira leva adiante a bandeira nacionalista por mediação de Plínio Salgado, que procura unir a ideologia nacionalista à defesa da pequena propriedade e sua extensão em nível nacional. Seu ódio à industrialização e urbanização define, nesse contexto, uma ideologia de nacionalismo defensivo, que não procura como o fascismo a expansão externa, militar ou não. Tem apoio nas classes médias urbanas, pequenos proprietários rurais, grandes latifundiários e setores civis e militares da burocracia estatal.

Vargas utilizou-a para subir ao poder, eliminado-a após tê-lo em suas mãos, devemos lembrar que o integralismo provém das Ligas Nacionalistas criadas na 1ª República, quando Olavo Bilac criava um ‘nacionalismo patrioteiro’ parnasiano. As Ligas se constituíam numa resposta conservadora aos movimentos sociais operários urbanos vinculados ao socialismo libertário em São Paulo, ou à social-democracia alemã, no Rio Grande do Sul, na mesma época.

Com Vargas, assistimos a emergência de um nacionalismo tático fundado com a implantação do ‘Estado Novo’ (1937/45), porque sua ideologia era ausência de qualquer ideologia, daí sua fama de ‘político’. Com a 2ª Guerra e a industrialização conjuntural que era sua decorrência no País, Vargas emerge como um ‘líder industrialista’. Ao mesmo tempo, cria o ‘sindicalismo de controle’ já em 1931, atrelado ao estado, onde ele no topo executava suas funções como ‘pai dos podres’.

Com Juscelino, teremos o célebre Iseb vinculado ao Ministério de Educação e Cultura – que, segundo ele – tinha como única bandeira ‘amar ao Brasil’.

O nacionalismo isebiano lutava ‘pelos interesses superiores da Nação’, criticava aqueles intelectuais que não compreendiam as ‘nações subdesenvolvidas’, considerava-se expressão autêntica ideologia, porque independente dos interesses específicos de cada classe, o Iseb formulava uma ideologia para a comunidade como um todo. Concebia uma sociologia nacional (desalienada), não falava de capitalismo, mas sim, de nação dependente.

Via a contradição principal entre a periferia e a metrópole e, no nível interno entre o setor moderno (industrial) e o arcaico (latifúndio).

Através de seus ideólogos, o Iseb definia as contradições fundamentais no Brasil; Alvaro V. Pinto pregava a união entre o proletariado e a burguesia autóctone contra o imperialismo e a burguesia industrial alienada; Cândido Mendes unia o empresariado aos assalariados num bloco contra o latifúndio expansionista; Guerreiro Ramos unia a burguesia nacional mais o proletariado contra os setores vinculados à estrutura colonial; Hélio Jaguaribe unia a burguesia nacional à classe média produtiva e o empresariado contra a burguesia latifundiária mercantilista e a classe média cartorial; Nelson W. Sodré, pregava a união entre a burguesia nacional, pequena burguesia e o operariado contra a burguesia latifundiária e o imperialismo; finalmente, Roland Corbisier, unia os industriais ‘autóctones’ ao proletariado urbano e à lavoura tecnificada contra o imperialismo, burguesia latifundiária-mercantil e classes médias parasitas, conforme Caio N. Toledo, ‘Iseb, fábrica de ideologias’, Ed. Ática, 1977, págs. 130/1.

Qual foi a prática de JK, oposta ao nacionalismo isebiano, do qual aproveitou a teoria desenvolvimentista? Sobre sua égide houve a internacionalização da economia, que os militares após 64 aprofundaram às últimas conseqüências com a ‘involução nacionalista’. Seu ‘desenvolvimento’ enriqueceu os mais pobres.

Por isso, entendo que o surto nacionalista perceptível apenas no nível do discurso é hoje fruto da crise conjuntural. Para a classe dominante no Brasil, pode ser uma arma para regatear com o capitalismo mundial maiores facilidades para si.

O nacionalismo que opõe frações de industriais e banqueiros, classe média contra estes e o capital internacional, define contradições secundárias no sistema. A intelectualidade classe média assumindo-o poderá usá-lo para ascensão social nos ‘aparelhos do Estado’. É o ‘interesse nacional’ ideal e o interesse classista particular o real. Para o proletário urbano e rural nada significa, mais envolventes têm sido os ‘saques’ para saciar a fome.

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* Maurício Tragtenberg é professor do Departamento de Ciências Sociais da Fundação Getulio Vargas em São Paulo e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Fonte: Folha de S. Paulo, de 19.11.1983. Também publicado in: http://www.espacoacademico.com.br/025/25mt191183.htm