sábado, 10 de janeiro de 2009

Israel: o cisma da alma - por Maurício Tragtenberg

Não é necessário ser sionista – não o sou – para verificar que a que a ‘Operação Paz para a Galiléia’ que levou à invasão do Líbano por Sharon, fez eclodir uma crise de consciência que atingiu a sociedade civil em Israel levando 400.000 pessoas a protestarem publicamente contra essa invasão, assim como abalou o apoio incondicional que, até então, as comunidades judaicas fora de Israel manifestavam ao mesmo.

Um reflexo dessa crise de consciência é o surgimento de ‘Encontro’ em seu número dois, que se declara por ‘um sionismo progressista’ e no seu editorial no número um ‘pretende trazer ao judaísmo brasileiro um pólo de reflexão sobre si mesmo e seu papel ante os problemas do Oriente Médio e do Mundo’ (pág. 3).

Engloba em seu Comitê de Redação, Celso Gabarz, Francisco Moreno de Carvalho, J. Klintovitz, Dan I. Gedanken, Y. Talenberg e Isaac Akcelrud. Apresenta-se ao leitor no Brasil como ‘publicação mensal do Kibutz Artzi-Haschomer Hatzair’ (‘Encontro’ nº 1, pág. 43).

‘Encontro’, no seu primeiro número de dezembro de 1983, apresenta entre outras coisas, uma crítica ao trabalhismo bicéfalo e à oposição acéfala através de uma carta ao deputado Gad Iacovi, ‘Carta aberta a Peres e Rabi’, publicada no matutino ‘Davar’, que, entre outras coisas, critica, no Estado de Israel, ‘a destruição das normas democráticas e sociais e o desrespeito dos governantes pelos seus deveres ridicularizam as noções de responsabilidade, justiça, império da lei e soberania e democracia parlamentar. A responsabilidade coletiva do governo tornou-se um conceito arqueológico – continua – e a distância entre as declarações e os fatos aumenta a desconfiança do povo no sistema democrático, valores de verdade e de responsabilidade sociais’. Linguagem incomum por esses arraiais.

Importante matéria é a que estampa a posição do embaixador Shlomo Argov. Ele sofrera atentado na Inglaterra, como embaixador do estado de Israel, cometido pelo grupo Abu Nidal, inimigo da OLP, pretexto para invasão do Líbano. Em fins de julho passado manifestou-se a respeito da invasão: a guerra do Líbano é uma aventura infortunada. Se tivessem calculado a magnitude da aventura teriam poupado a vida de nossos melhores filhos. Os soldados, assim como todo o povo, estão cansados das guerras. Estamos cansados delas. (pág. 5)

Falando em guerra, ‘Encontro’ mostra os lucros da guerra, onde ‘os impostos, empréstimos e bônus emitidos para o financiamento da guerra do Líbano superaram em 25% o custo do conflito’ (pág. 5) atingindo os lucros da guerra a 23 milhões de shekel (moeda israelense). A revista traz uma matéria onde o Mapam (partido de oposição) critica o apoio israelense à invasão de Granada.

‘Encontro’ denuncia, num artigo, ‘A intervenção em El Salvador’, que ‘a política de repressão e terror governamental é perpetrada na América Central com a ajuda da submetralhadora Uzi e o rifle Galil (págs. 39/40) e aviões de transporte Aravá!

O governo de Israel, segundo ‘Encontro’, vendeu 25 aviões de transporte Aravá Stol 201, 200 submetralhadoras Uzi de 9 mm, 200 lança mísseis de 80 mm, 18 bombardeiros de combate Ouragán Dassault reformados, 6 aviões de treinamento Fuga Magister. Registra que EUA, França e Brasil, figuram como parceiros fornecedores de armas à Junta de El Salvador, num período que abrange 1974/79.

A autora do artigo, Shulamit Segal, conclui: ‘Não é segredo que Israel está ganhando muito poucos amigos graças à sua política de venda indiscriminada de armamentos. De fato, está ganhando inimigos que incluem hoje em dia o governo sandinista da Nicarágua. E não é casual, Israel foi o principal fornecedor de armas para o governo Somoza.’ (Pág. 41)

Ainda sobre armamentismo e guerra, ‘Encontro’ traz o testamento do soldado Meidad Alon, publicado no jornal israelense ‘Haaretz’ três dias antes de sua morte no Líbano. Escrevia ele: ‘Somos a geração de Sharon. Pagamos e estamos pagando dia após dia o imposto. Levamos pedaços de corpos, membros queimados e homens dilacerados ao enorme altar de Sharon e lhe dizemos: Toma, esta é tua vez de vencer. Nós sempre perdemos. Mesmo que conquistemos Trípoli teremos sido derrotados: essa geração de soldados de Golani (unidade de elite do exército), paraquedistas e blindados. Jamais se deve esquece-lo.’ (Pág. 2)

‘Encontro’ traz quatro artigos sobre o celerado governo Beguin onde predomina a influência do partido Likud e a autonomia ampla que goza a máquina militar comandada na época de Sharon, Eytan, Drori e outros rinocerontes. Razão pela qual, Sever Plotzker clama por ‘campos verdes, depois de Beguin. Ar puro, o orvalho banhando a ponta das folhas, o aroma da terra que desperta. Depois de todos os Meridor, Aridor e Savidor (membros da coalizão governamental) queremos correr descalços no parque, rodar pelas colinas dos campos verdes. Nos últimos anos a asfixia tornou-se intolerável. Não se podia falar, ouvir, respirar. Encheram-nos de grandes palavras nacionais que envolviam feitos miseráveis. O presente está engasgado em nós como um osso na garganta: não podemos vomitar, não podemos tragar.’ (Págs. 12/13.)

Gadi Iatziv, professor da Universidade de Tel Aviv, no artigo, ‘Um hebraico retumbante’, mostra-nos Beguin como ‘o homem que iludiu as massas populares, fazendo-as crer que lhe fazia o bem, enquanto nos afundava até o pescoço num desastre econômico contínuo e em dívidas externas de enormes dimensões. Que desenvolveu uma infra-estrutura de colonização destinada a eternizar a hostilidade e o domínio dos judeus sobre os árabes, ameaçando destruir qualquer possibilidade de acordo e inibir qualquer esperança de paz’ (pág. 14).

Levi Morav escreve que a definição dos palestinos como ‘bestas bípedes’, com que Beguin batizou Arafat: ‘esse que tem pelos na cara’, revelou um mundo espiritual, cultural e político aterrador. Um mundo no qual os árabes – em especial os palestinos – são considerados os piores inimigos, um mundo no qual as metáforas lembram as utilizadas pelos antisemitas durante séculos (pág. 15). Conclui que seu governo foi marcado pela ‘linguagem bombástica, mentira e nacionalismo’.

‘Encontro’ traz em encarte uma publicação do movimento pacifista ‘Paz Agora’, engajado na luta pela paz no Oriente Médio, por cujo intermédio ‘o povo judeu se incorpora ao grandioso movimento mundial pela paz entre as nações’, conforme artigo ‘Shalom Ahshav’ (Paz Agora), ‘caminho de Paz’ de Isaac Akcelrud, onde nota que ‘começa fraternizando judeus e palestinos para escândalo dos reacionários judeus e árabes’.

Conclui o articulista assinalando que ‘compreende-se; portanto, que os homens do ‘establishment’ que agridem e caluniam os partidários e ativistas da paz, colocam-se fora do povo e não pertencem ao nosso tempo. Renunciam à identidade judaica’ (pág. 22)

Yossi Thalenberg, em ‘Dois pesos e Duas Medidas’, assinala que as milícias do major Haddad massacraram barbaramente mais de 1.000 civis indefesos com o beneplácito do exército de ocupação israelense. Depois de um ano, dissidentes palestinos e o exército regular sírio bombardeiam os campos de refugiados palestinos de Naha El Bared e Badawi (fiéis ao líder da OLP, Arafat) matando mais de 1.000 indefesos. Por sua vez, o governo sírio foi apontado pela Anistia Internacional por suas práticas de tortura e instigador de uma guerra fratricida entre palestinos. Sobre esses últimos fatos, nenhum palavra. Segundo o articulista, isso configura dois pesos e duas medidas.

Inúmeras outras matérias não puderam ser apresentadas ao leitor, por problema de espaço. Porém, o interessado na revista, encontrá-la-á na redação, à rua Bandeirantes, 474, Capital. ‘Encontro’ é uma alternativa em informação, apresenta problemas para serem discutidos. Pode-se estar a favor ou contra a revista; desconhecê-la não.
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* Publicado in: Folha de S. Paulo, 02.04.1984.
** Maurício Tragtenberg é professor do Departamento de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo e na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autor de vários livros.

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