sábado, 31 de outubro de 2009

Ciências Sociais na mira do Capes - por Maurício Tragtenberg

Regimes, pessoas e instituições repressivas precisam de bodes expiatórios, necessitam de vítimas para expiar os crimes dos verdugos. Assim como o nazismo tem seu judeu, como estruturas familiares rígidas necessitam do “louco” da família, regimes autoritários investem contra as ciências sociais, porque isso rende muitos dividendos: em nome da funcionalidade, eficiência e objetividade se bajula o poder, mantém-se o cargo e ao mesmo tempo se adquire respeitabilidade nos ambientes palacianos, como alguém que é portador de um saber legítimo e reconhecido. No caso nacional, o papel de judeu do regime é atribuído às ciências sociais, é a conclusão a que chegamos após termos em mão o paper “A Área de Administração e a atuação do Capes", de autoria do Cláudio de Moura e Castro.

Sua senhoria – participante convidado pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da FGV, para um seminário sobre o Ensino de Administração – nota inicialmente que há um recrutamento pouco seletivo da graduação com reflexo em sua aceitação pelo mercado de trabalho, salientando que há uma cultura gerencial brasileira a ser transmitida. Mas, enquanto o mercado empresarial esvazia as escolas de professores de administração, os professores de economia, política, sociologia aumentam geometricamente. Como remédio propõe o Método dos Casos, sistema de jogos e história dos negócios nos cursos de administração; para tanto o Capes está se propondo a implementar uma política seletiva no oferecimento de suas bolsas de estudo, limitando fortemente sua alocação para elaboração para teses que sejam mais afetas a outras áreas de conhecimentos afins (economia, sociologia etc.).

Tal orientação tecnocrática não só contraria postura já clássica a respeito – do Conselho Federal de Educação (Parecer 307/66 C.E.SU publicado em “Documenta” n. 56) – como a orientação dominante no país onde se originaram os cursos sistemáticos de administração, que serviram de parâmetros para Europa e América Latina: EUA.

Em primeiro lugar, o CF no Parecer citado define claramente, ao analisar as Diretrizes para o Currículo Mínimo de Administração, que “a estrutura administrativa constitui fundamentalmente um problema político e jurídico e apenas secundariamente um problema de organização formal” (pág. 63). Daí a importância das Ciências Sociais que objetiva o conhecimento sistemático dos fatos e condições institucionais em que se insere o fenômeno administrativo (pág. 62). Sem deixar de referir-se à experiência dos EUA, onde o fato administrativo passou a traduzir as condições políticas, sociais e econômicas muito mais que os padrões formais de organização. Essa visão foi beneficiada pelas tendências da sociologia e economia contemporâneas (pág. 61).

Da mesma forma pensa o Prof. Frank C. Pierson (The education of American Businessmen, pág. 163, trabalho solicitado pela Carnégie Corporation of New York). Pondera que deve o estudante ter a oportunidade de transferir conhecimentos de caráter geral para a área de administração. No mesmo sentido os profs. Robert A. Gordon e James E. Howell, num estudo a pedido da Ford Foundation Higher Education for Business, na página 133, recomendam que para a formação de um administrador numa sociedade democrática 40 a 50 % das disciplinas dos currículos devem ter caráter geral e não técnico. No mesmo sentido a American Assembly of Collegiate Schools of Business (AACSB), que credencia as escolas de administração nos EUA, adota como critério de credenciamento que 40 a 50% das disciplinas ministradas estejam vinculadas às ciências sociais. Tudo isso mostra como nós brasileiros somos os últimos a saber das primeiras coisas. Quando os EUA abandonam o ensino pago pelo ensino subsidiado, descobrimos que a ampliação do ensino equivale à democratização do mesmo; quando os EUA abandonam a estreiteza da visão tecnocrática instrumental e empírica do ensino de administração, fundando seus currículos nas ciências sociais, descobrimos as virtudes de saber cada vez mais menos coisas e exorcizar as ciências sociais como o demônio. Isso se deve realmente ao baixo nível de institucionalização das ciências sociais no continente. Se na Argentina a psicanálise está proibida, não é de admirar que no Brasil as ciências sociais estejam na mira de outro órgão financiador de pesquisa – Finep –, que pretende financiar pesquisas ligadas diretamente á indústria, portanto financiar tecnologia, deixando de lado o financiamento da pesquisa nas universidades onde se faz ciência básica. Tudo isso mostra de que maneira o subdesenvolvimento material gera o subdesenvolvimento mental.

Assim, por exemplo, a pesquisa “Pequena e Média Empresa de São Paulo”, coordenada pelo Prof. Rattner da FGV e publicada pela Ed. Símbolo, jamais viria à luz, eis que contou com sociólogos, especialistas em ciência política, finanças e economia política para ser implementado.

Sem dúvida que o estudo de Casos em administração ou os jogos administrativos auxiliam o aluno a ter uma visão da empresa, porém, de que valem se o mesmo, não dispondo de conhecimentos que a economia, sociologia, política fornecem, não tem um universo conceitual para interpretar os fatos, para compreendê-los? Já dizia o velho e sempre atual Machado de Assis, que o “fato é importante, porém, mais importante é a retina”. Em outras palavras, possuir uma metodologia – que não pode ser confundida com técnica – para interpretar o fato. Não sucumbir à ditadura do fato pregada por Auguste Comte. Contrariamente a ele e ao positivismo, as ciências sociais, especialmente nas suas orientações críticas, enfatizam que contra o fato há argumento. Em última análise, o privilegiamento de projetos tecnocráticos na área da administração, excluídas as ciências sociais, não tendem a formar um homem apto a viver numa democracia. Tende a formar tecnocratas e burocratas empedernidos, contra os quais Max Weber lutava em sua época, classificando-os como “técnicos sem alma” e “especialistas sem coração”. Em outros termos, uma ciência sem consciência ou, no melhor dos casos, uma tecnologia que pretende se apresentar como ciência. É isso que aqueles que não pensam com os pés precisam evitar. Daí a comunidade acadêmica estar com a palavra.

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* Maurício Tragtenberg é professor do Departamento de Ciências Sociais da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas e da Unicamp. Autor de “Burocracia e Ideologia” e “Administração, Poder e Ideologia”. Fonte: Folha de S. Paulo, 08.06.1981.

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